Stultifera Navis
Sábado, Janeiro 29, 2005
  De onde eles vieram?

O Anarquismo, um devaneio de românticos desesperados, teve os seus teóricos e pensadores, homens de inteligência, sinceros e fervorosos, que amavam a Humanidade. Teve também os seus instrumentos, os homens sem projeção cuja pouca sorte, desespero e ódio, degradação e desesperançada pobreza os tornaram suscetíveis à Idéia até que se tornaram de tal forma dominados por ela que foram levados a agir. Mas de onde vinham estes homens?

Vinham do viveiro dos miseráveis, onde a fome e a porcaria eram o rei, onde tísicos tossiam e o ar se tornava grosso com o cheiro das latrinas, couves a cozer e cerveja rançosa, onde crianças gemiam e casais gritavam em incríveis brigas, onde os telhados abriam buracos e as janelas deixavam entrar as frias rajadas do inverno, onde o recato de uma vida íntima não podia sequer imaginar, onde homens, mulheres, avós e crianças viviam em completa promiscuidade, comendo, dormindo, fornicando, defecando, adoecendo e morrendo no mesmo quarto; onde numa panela fervia água para as lavagens entre as refeições, caixas velhas serviam de cadeiras, montes de palha suja serviam de camas e tábuas apoiadas em dois caixotes faziam de mesas; onde algumas vezes nem todas a crianças numa família podiam sair ao mesmo tempo porque não havia roupa bastante para se vestir; onde famílias decentes tinham de viver entre bêbados, homens que batiam nas mulheres, ladrões e prostitutas, onde a vida era um sobe e desce de desemprego e infindável trabalho, onde um operário de uma fábrica de charutos e a mulher, ganhando 13 cêntimos por hora, trabalhavam dezessete horas por dia, sete dias na semana, para se manter a eles e a três filhos; onde a morte era a única saída e a única extravagância e as insignificantes economias de uma vida inteira acabavam por ser dissipadas na carreta funerária, com flores e um cortejo de carpideiras que livrassem do anonimato e da ignomínia da vala comum. (Barbara Tuchman. A Torre do Orgulho: um retrato do mundo antes da Grande Guerra. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1990)

Outro dia, um desses meus alunos bem vestidos, bem nutridos e com futuro assegurado, me disse ser anarquista e era por isto que eu não conseguia entendê-lo. Sem comentários...

 
Sexta-feira, Janeiro 28, 2005
  Desconhecimento de causa

Escrever sobre as mulheres é sempre muito difícil! Não por que eu não tenha vontade de fazê-lo e nem por que as desconsidere, nem por que não as julgue dignas de comentários sérios. Mas é simplesmente porque sei que aquilo que escrevo não faz muito sentido para elas, aparece como o discurso convencional que os homens gostam de afirmar e reafirmar sobre aquilo que fazem ou deixam de fazer. Nossas falas sobre as mulheres são como páginas viradas de um livro, ditos de homens eternamente às voltas com o poder, a conquista e o triunfo, enquanto elas tem de cuidar da estabilidade, do afeto, da segurança, dos filhos, do trabalho... da emotividade – e talvez com tudo isto que nos preocupamos também. Confesso, com sinceridade, que talvez elas tenham razão e que nós homens, quando delas falamos, o fazemos com total desconhecimento de causa.

As mulheres são capazes de atos corriqueiros que, quando feitos por elas, assumem significados peculiares! São capazes, por exemplo, de nos ligar a qualquer hora da noite, falar que nos ama, que sentem nossa falta, que desejariam que estivéssemos ao seu lado naquele momento, nos chamar para irmos dormir junto delas... Podem estar no quarteirão do lado ou a quilômetros de distância, mas não importa! Ficamos felizes com o ato e voltamos a dormir como se fôssemos crianças. Talvez por que a gente saiba, ou imagine, que isto foi feito porque elas de fato queriam, que elas sentiram saudades, sentiram falta da gente. Isto muito alegra e nos deixa felizes! Faz querer ter mais convivência, sentir-se mais próximo na relação com elas, mesmo que, muitas vezes, se saiba que tudo isto seja totalmente impossível!

Mas se há alegria, existe tristeza também! As mulheres, muitas vezes, parecem-me perdidas, agarradas a relações que não sabem muito bem o que fazer delas e brincam com o fogo! Pensam que não percebemos, que não sabemos que isto está ocorrendo... Mas murmúrios, palavras ao vento, frases soltas nos fazem compor enredos e decifrar roteiros... Enganamo-nos, muitas vezes, mas é possível perceber nos atos, nos gestos, nos devaneios, na angústia que assalta repentinamente, que caminhos paralelos estão se formando.

Inicia-se, então, um jogo interminável no qual os mínimos detalhes - tom de voz, comportamentos, aproximações e distanciamentos, euforia e tristeza, nervosismo e irritação, palavras aleatórias ou desconcertos inesperados... – são labirintos de idas e voltas, avanços e retrocessos, passos firmes, mas um andar vacilante. Não sei, mas penso que na vida das mulheres há passado demais, fantasmas em excesso dos quais se é difícil libertar. Tem a maldita obsessão com segurança e estabilidade, a moral burguesa se interpondo entre os desejos dificultando, em muitos casos, a manifestação da pessoa maravilhosa que uma mulher pode ser! Penso que estas coisas levam as mulheres a lidar de uma maneira enviesada com a liberdade e a autonomia, procurando o seu valor na posição dos outros em relação a elas, castrando, pela raiz, o poder incomensurável que possuem.

Quanto mais o tempo passa, mais os custos vão se tornando mais altos e mais difíceis vão se tornando as tentativas de reversão. A chegada da idade madura – e como geralmente se diz, da sexualidade a flor da pele – tornam, no meu entender, o encaminhamento das coisas difíceis, pois as mulheres me parecem entrar em crise com seus corpos, a sentirem saudade de seus dezessete anos, às vezes parecem contentes com a própria forma, outras vezes não... Não consigo entender por que muitas delas não esfriam a cabeça, erguem seus belos seios e fazendo funcionar seus neurônios – que nós homens insistimos em dizer que não o fazem corretamente - decidam a sua vida! Observando várias delas tem-se a impressão que recuam e começam a acreditar que o seu destino é o casamento – quanto mais burguês, melhor –, deixam-se levar pelo discurso da fragilidade e da maternidade, esquecem-se que tudo isto não esta à altura de sua competência, sensibilidade e beleza, correm o risco de se transformarem, em menor ou maior grau, na mulherzinha ideal... Ou seja: uma vida segura com casa, comida e marido e, ao mesmo tempo, sem saber o que fazer com os admiradores e os amantes, transmutando-se em pessoa submissa, cordata e conformista...

Talvez todos nós sejamos, no fundo, assim mesmo, pois não sabemos viver de acordo com a nossa natureza! As mulheres, assim como os homens, possuem personalidade, são sensíveis, inteligentes, devassas, sonham, desejam, apaixonam-se, entregam-se, possuem almas inocentes-prostitutas, odeiam, sofrem, fazem sofrer, amam-se, matam e morrem! São, como os homens, capazes de fazer coisas magníficas, mas, também, capazes de perder, irremediavelmente, suas vidas, pois, humanas que são, andam sempre às voltas com os fantasmas do passado, com as carências cotidianas, com as suas verdades e mentiras, com a polidez nossa de cada dia...

Penso que no fundo, todos nós prostituímos a vida, talvez todos nós tenhamos alma divina e carne de prostíbulo... e talvez não saibamos lidar com isto – ou procuramos as alturas claras do firmamento ou as profundezas escuras do inferno... Talvez todos nós não saibamos o que fazer com a nossa humanidade... Talvez as mulheres, com seus impulsos e maneira peculiar e emotivamente direcionada de realizá-los estejam corretas e, nós, racionalizantes e eternamente obcecados pela vontade de poder, estejamos irremediavelmente equivocados. Talvez, nunca, tenhamos respostas para tudo isto...

Mas é preciso viver! E viver, nada mais é do que carregar este saco de pedras – algumas imensas, outras minúsculas – que recebemos de herança de nossos pais e avós. Viver é suplício de Sísifo e temos que carregar este maldito fardo – até quando chegar a hora de o passarmos adiante para os nossos descendentes... E talvez, no meio de tudo isto, todo este nosso desespero, esta angústia que persegue homens e mulheres em suas relações, seja simplesmente o pedido de ajuda para carregar este legado – que não pedimos que nos fosse entregue –, mas sem o qual não temos como viver... Talvez esta angústia, nada mais seja do que a tentativa infrutífera de compartilhar as pedras, tornar mais suave o seu carregar e transmiti-las, um pouco mais leves, para os nossos filhos... Existe ilusão maior? Não. Há outra solução? Não sei...

 
Quarta-feira, Janeiro 26, 2005
  Digressões curtas: tristeza e depressão

Não sou especialista no assunto, mas penso que tristeza e depressão não são a mesma coisa.

A tristeza nos vem pela sensação de ausência e de perda de algo que amamos. Isto nos faz, de alguma maneira, procurar supri-la, nos movimenta em direção ao objeto perdido ou da sua compensação, nos faz buscar e construir alguma coisa...

A depressão, que não exclui a tristeza, é fruto da não-aceitação obstinada da ausência e da perda, não só daquilo que não tivemos, mas também daquilo que nunca poderemos ter. Ela consiste na recusa obcecada em assumir a responsabilidade de viver. Ela paralisa, destrói, imobiliza e faz nascer apenas o querer tudo destruir – inclusive, e principalmente, a nós mesmos...

A diferença entre tristeza e a depressão é que em relação, à primeira, podemos ter esperança; em relação, à segunda, o único sentimento possível é o de impotência...
 
Segunda-feira, Janeiro 24, 2005
  Deus está conosco?

Estive em uma casa de loucos e alienados, dirigida por sádicos. Os guardas da SS não eram seres humanos - eram totalmente anormais. O sadismo e a crueldade dessa gente não tinha limites. Nos anos que se seguiram à libertação, fiz tratamento físico e psiquiátrico. Sentia desespero e vergonha por me saber da mesma espécie de meus torturadores. Até hoje tenho pesadelos. Viro a cara quando vejo uma suástica. A história desse príncipe inglês [Harry], esse imbecil que se vestiu de nazista em uma festa, me dá ânsia de vômito. Como foi possível um povo europeu perpetuar um massacre como aquele? Se o povo alemão, tão culto e civilizado, foi capaz disso, para que serve a civilização? Eu me lembro que as tropas nazistas usavam um cinturão que tinha o seguinte dizer em sua fivela: Gott mit uns, Deus está conosco. Depois de tudo o que vi, não dá mais para acreditar em Deus. (Estado de São Paulo, domingo, 23 de janeiro de 2005)

Este é o depoimento de Raymond Frajmund, sobrevivente de Auschwitz-Birkenau e participante da chamada Marcha da Morte - quando 8.000 prisioneiros, frente à chegada eminente dos russos, são retirados de Auschwitz e obrigados a marchar, por oito dias, com fome e em uma temperatura de -20 graus Celsius, até o campo de Blechhammer e no final da qual, apenas 700 sobreviveram. No dia 27, fazem 60 anos que, o já não tão glorioso Exército Vermelho, libertou o campo de extermínio em 1945. Até hoje, por mais que eu leia sobre o assunto, eu não consigo entender o nazismo, não consigo entender como suas práticas estão sendo revividas e como muito do mundo contemporâneo tem de suas idéias na propaganda, na política, no culto ao corpo, na recusa do pensamento, na valorização da mentira explícita e descarada e no desprezo pela vida humana... O que mais intriga no nazismo talvez não seja o nível de crueldade alcançada - ela é, simplesmente, o mal indizível -, mas todo o processo que culminou neste mal absoluto e de como as pessoas foram se deixando levar, naturalizando a escalada das coisas, se abstendo de pensar, envoltas em um sono letárgico que terminou em um pesadelo indescritível. Há um certo clima de tudo isto na sociedade contemporânea, uma naturalização da maldade que me assusta, uma incapacidade generalizada de indignação, de formulação de juízo e de tomada de posição. Isto é, com certeza, assustador, pois se se é familiarizado com a história da ascensão do nazismo, tem-se idéia de como tudo começou...

Acho que tudo se resume naquilo que Primo Levi, também prisioneiro, relata. Em pleno inverno no campo de concentração, tomado pela sede extrema, abaixa-se e apanha um pedaço de gelo no chão e este lhe é arrancado violentamente pelo guarda. Assustado, volta-se e pergunta ao agressor: Por que? Este lhe responde: Aqui não existe por que.
 
Domingo, Janeiro 23, 2005
  Incineração

Fumar é um jeito discreto de ir queimando as ilusões perdidas. Daí, esse ar entre aliviado e triste dos fumantes solitários. Vocês ainda não repararam que ninguém fuma sorrindo?

Mário Quintana.

Obrigado Honey!
 
Quinta-feira, Janeiro 20, 2005
  Melancolia II

Há, agora, apenas o grande repouso na melancolia, uma grande enfastia... Carne e osso – matéria imperfeita da substância humana – aos quais os deuses evitam para não inundar, de imundície, a árvore do conhecimento e não contaminar, com miasmas e vermes, a beleza, geométrica e eterna, da felicidade sem fim... Carne e osso – barro amassado, cuspido pelos deuses e arquitetado nas entranhas do inferno –, verbo demoníaco declina, sob o vôo leve da forma, o tempo de sua tristeza: doer, buscar, perguntar, indagar, sofrer, rir, chorar, feder, incomodar, apaixonar, apodrecer e, sobretudo, maldição eterna, sentir e cansar... Carne e osso pesam-lhe, por sobre seus ombros disformes, a perfeição divina e a perenidade da forma...
 
  Tempos Modernos I


Pieter Bruegel, O Triunfo da Morte, 1562.
 
Segunda-feira, Janeiro 17, 2005
  Uma alegoria do Tempo desvelando a Verdade


Jean-François de Troy, 1679-1752.

 
Meu pensamento é couro deixado ao sol para curtir e nele só podem ser traçadas palavras que deixam um sulco árido de desconforto, um odor nauseabundo que desagrada o olfato, incomoda os narizes sensíveis e inundam de mal-estar os neurônios bem comportados.

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